COTIDIANO

Tudo junto e misturado

2 de janeiro de 2016

Este texto é a estreia da Liliane Camargo no site, e aborda o momento decisivo da escolha da escola dos nossos filhos. O desafio é ainda maior quando temos uma criança com restrição alimentar.

Foto: freeimages.com

Texto: Liliane Camargo

Tudo junto e misturado

Pais de crianças com restrições alimentares só querem uma coisa. Poder ver seus filhos conviverem em sociedade de igual para igual. E o primeiro passo, para que isso ocorra, começa na escola

 

Pais a beira de um ataque de nervos. Esta é a melhor definição para como se sente quem tem filho com restrição alimentar nesta época do ano. Período em que saem à caça de escola. Não importa se é a primeira vez ou se já se perdeu a conta do número de vezes que isso ocorreu, buscar uma instituição que aceite e realmente inclua a criança é tarefa complicada. Há relatos na internet aos montes de pais que, apesar de a instituição de ensino dizer que era inclusiva, separa a criança das outras na hora de comer, só para não ter trabalho de fiscalizar para que não ocorram escapes, que para uma pessoa com restrição pode ser fatal. Mesmo amparados por uma Lei federal nº 12.982 de 28 de maio de 2014, que regulamenta a obrigatoriedade de um cardápio especial para quem necessite – outro grande problema encontrado pelos pais -, escolas particulares, no entanto, dizem que não estão incluídas nesta legislação. E assim, quem tem filho com algum tipo de restrição alimentar se vê numa sinuca de bico.

 

Vagas

 

Muitas mães relatam que encontram dificuldade em matricular o filho nas escolas. Quando públicas, além dos entraves burocráticos de oferta de vagas, ainda os pais precisam de muita paciência e disposição para que o filho fique em segurança. E, mais que não seja marginalizado, deixado só, comendo junto com os professores ou separado do grupo, em cadeirões, como existem relatos. Amparados na Lei, no entanto, para este grupo, apesar da dor de cabeça e dos obstáculos que a burocracia apresenta, pelo menos no que se refere ao que será oferecido aos filhos há uma esperança. Quanto à inclusão como um todo, o trabalho, definitivamente é de formiguinha.

 

No caso das particulares, a inclusão é uma palavra muito usada. Entretanto, no dia-a-dia, nem sempre, ela é empregada em sua plenitude. Bianca Buzo Carvalho, que tem um filho com alergia alimentar múltipla, estava em busca de uma escola para o garoto, para o próximo ano, quando ele completará quatro anos. Mesmo falando do problema do menino, voltava assustada de várias instituições. “Acabei optando pela que tinha o método que eu gostaria para o meu filho e que o lanche é individual, cada um traz de casa o seu”. Segundo ela, “a maioria dos estabelecimentos que forneciam a alimentação não sabiam nada sobre traços”. Vale ressaltar que têm pessoas que reagem à menor partícula de alérgeno.

 

Mas nem tudo está perdido. Em vários estados encontramos mães que acharam luz no fim do túnel. Adriana Beraldo é uma destas pessoas. Ela possui um filho com alergia a proteína do leite de vaca (APLV) e encontrou uma escola receptiva. “Levei todos os pedidos e relatórios médicos para a escola e demonstrei que a dieta de todas as crianças poderia ser mais saudável. Hoje a escola possui outras crianças alérgicas e nossa troca é constante”, relata.

 

Esperança

 

Poucos são os estabelecimentos como a Escola Aprendiz, em Santo André, município do Grande ABC, em São Paulo. A instituição abraçou a causa e faz um trabalho inclusivo, não só entre alunos, mas agregando pais e profissionais que trabalham direta ou indiretamente com as crianças. Viviane Aparecida Guadanholi Bonvicini, diretora e mantenedora da escola, conta que apesar de a mudança ter sido trabalhosa, o resultado foi surpreendente e encantador. “Por sermos leigos, precisamos nos capacitar. Fizemos uma reunião com a coordenação, nutricionista e todos os funcionários para acertamos o que faríamos para manter o primeiro aluno – filho da Adriana Beraldo – em segurança”, conta. Na sequência a diretora fala que reuniu os pais dos colegas de sala da criança. “Explicamos a situação e todos se sensibilizaram e também abraçaram a causa”.

 

Os reflexos deste trabalho, segundo ela são enriquecedores. “A comunidade escolar ganhou em aprendizado e com as novas experiências, que com certeza, farão de nós seres humanos melhores”. E, estes sinais podem ser percebidos no dia a dia. Viviane relata que, “hoje, o menino participa de todas as atividades com os amiguinhos, que inclusive se preocupam em sempre ter algo que ele possa comer”. Para ela, é importante que as escolas se conscientizem de que elas precisam ser inclusivas, como todo. “Cada vez mais nascem crianças com o problema e temos que fazer com que elas não se sintam excluídas e temos que mostrar a comunidade que temos o dever de fazer a nossa parte”, ressaltando que se os donos de escolas se colocarem no lugar dos pais, perceberam o quanto é difícil para eles. “Incluam essas crianças e façam mudanças no cardápio, na rotina, ou seja, aonde for, pois o retorno é gratificante”, finaliza.

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