COTIDIANO

O que é alergia alimentar? O início da caminhada

18 de dezembro de 2015

Por Liana Macêdo

 

Quando a recebi o convite para escrever para o Sabor Sem Limite pensei logo nas dificuldades iniciais para entendermos as alergias alimentares e achei que seria útil às mamães e responsáveis informações básicas. Esse texto aborda um pouco desse momento inicial, buscando aumentar o nível de informação com qualidade, utilizando uma linguagem simples.

 

O QUE É ALERGIA ALIMENTAR?

É toda reação que ocorre após a ingestão de um alimento que envolve mecanismos imunológicos. As reações alérgicas acontecem por causa das proteínas contidas nos alimentos. A alergia pode ser mediada pela imunoglobulina E (IgE), não mediada pela IgE ou mista.

Os sintomas das alergias alergias alimentares podem ser confundidos com outras reações adversas a alimentos que não envolvem o sistema imunológico, como pode acontecer na alergia a proteína do leite de vaca (APLV) e intolerância a lactose (IL).

 

O que é IgE?

A imunoglubulina E é um anticorpo (responsável pelas defesas, faz parte do nosso corpo) responsável pela reação alérgica. Em contrapartida, chamamos de antígeno um elemento externo ao organismo capaz de deflagrar uma reação alérgica. Essa reação acontece quando a IgE se liga aos antígenos, que podem ser alimentos, ácaros, pólens, proteínas de animais domésticos ou outras substâncias que atravessam as mucosas respiratória e/ou digestiva. O resultado da ligação entre IgE-anticorpo é a liberação histamina e outras substâncias que causam tosse, chiado no peito, falta de ar, coriza, espirros, vermelhidão e coceira na pele.

 

APLV x IL

O leite de vaca (LV) é composto por 3 “macronutrientes” (nutrientes que estão em maior quantidade nos alimentos): proteínas, carboidratos e lipídeos (gorduras). As proteínas contidas no LV são a caseína e as proteínas do soro do leite, lactoalbumina e lactoglobulina. O carboidrato do leite, também chamado de açúcar do leite é a lactose.

Aqui faço um parêntese para deixar clara a diferença entre APLV e IL, pois são frequentes os relatos de familiares, amigos e até mesmo profissionais de saúde que confundem APLV com IL.

O nutriente responsável pela reação alérgica é a proteína, a denominação APLV deixa claro que a alergia é à PROTEÍNA do leite de vaca. Essa proteína é capaz de desencadear a reação imunológica, a qual pode se manifestar em vários sistemas: cutâneo, respiratório, digestório, cardiovascular, neurológico.

Não existem relatos de reações alérgicas aos carboidratos. Na IL a reação adversa não é uma reação alérgica, pois não envolve o sistema imunológico e o nutriente envolvido não é uma proteína.

A LACTOSE é um carboidrato!

NÃO EXISTE ALERGIA À LACTOSE!

Esse carboidrato é formado por duas partes menores ligadas entre si (galactose e glicose) que precisa ser quebrado por uma enzima localizada na parede intestinal, a LACTASE. Quando a lactase está diminuída a lactose não é completamente digerida permanecendo na luz intestinal e sendo fermentada por bactérias locais. O produto dessa fermentação é a formação exagerada de gases, que causam distensão abdominal e dor. Além disso a lactose é uma carboidrato de alta osmolaridade (alta concentração), o que faz a água migrar dos tecidos para o intestino causando desidratação e fezes aquosas.

Portanto diarréia e dor abdominal podem ser sintomas comuns da APLV e IL, mas com fisiopatologia e tratamentos diferentes. A manifestação em outros sistemas orgânicos, que não no trato intestinal, exclui a IL.

 

TIPOS DE REAÇÕES

Mediadas por IgE

As reações mediadas por IgE são de rápido surgimento, cerca de até 2 horas após a exposição ao alérgeno. Os sistemas geralmente acometidos são:

Cutâneo: com o aparecimento de urticária, manchas avermelhadas em alto relevo, bem delimitadas e que coçam e angioedema, inchaço que pode acompanhar a urticária.

Digestório: aparecimento de dor abdominal, vômitos e diarréia até 2 horas após a ingestão do alimento. A síndrome da alergia oral é mais comum ao contato com frutas e legumes crus, mas pode ocorrer também ao contato com leite de vaca. De início rápido desencadeia coceira, vermelhidão e edema na região dos lábios, língua, palato e garganta. Geralmente os sintomas são breves.

Respiratório: obstrução nasal, coriza, coceira e espirros podem estar associadas a sintomas oculares (vermelhidão, coceira, lacrimejamento). Geralmente os sintomas respiratórios estão associados a sintomas de outros sistemas.

A tão temida anafilaxia é uma reação alérgica grave, de início súbito e com grande risco de morte. Os sintomas podem surgir de minutos a horas, sendo o pico entre 3 e 30 minutos. O sistema respiratório é o principal sistema envolvido no choque anafilático e a mortalidade ocorre principalmente devido aos sintomas como broncoespasmo ou edema de laringe (onde está localizada a glote).

A dosagem de IgE sérica específica para os alimentos suspeitos é um recurso que apoia o diagnóstico, mas a clínica é soberana, por isso a história detalhada tem maior valor do que exames laboratoriais.

 Não mediadas por IgE

            As reações não mediadas por IgE geralmente apresentam-se de forma tardia, podendo demorar de horas até dias para aparecerem. As mais frequentes são a coloproctite alérgica e enterocolite produzida por proteínas.

Coloproctite alérgica: ocorre a presença de muco e sangue nas fezes, sem comprometimento do estado nutricional.

Enterocolite induzida por proteína: a exposição crônica pode provocar vômitos, diarréia e causar baixo ganho de peso e estatura. A reexposição após um período de restrição pode ocasionar vômitos diarréia e desidratação após 2 horas de exposição.

 Mecanismos Mistos

            Nesse caso mecanismos humorais e celulares estão envolvidos, tornando o diagnóstico mais difícil. Os principais exemplos são: a dermatite atópica e a esofagite eosinofílica.

Dermatite atópica (DA): A DA é caracterizada por um processo inflamatório na pele, podendo serem as reações agudas ou crônicas. Cerca de 40% das crianças com DA graves e moderadas sofrem com as alergias alimentares. Em 90% dos casos os alérgeno envolvidos são: leite de vaca, ovo, soja e trigo. As reações que acontecem até cerca de 2 horas após contato com o alérgeno sugerem o envolvimento de IgE específicos. Reações tardias podem ocorrer de 6 a 48 horas após a ingestão alimentar, estando associadas a reações não mediadas por IgE.

Esofagite Eosinofílica: Após a deglutição, os alimentos entram pelo esôfago e desembocam no estômago. A esofagite eosinofílica é uma inflamação que ocorre somente nesse órgão, podendo ser a alergia alimentar uma das causas. Os sintomas mais frequentes são: vômitos, dores abdominais, regurgitação e disfagia (dificuldade de deglutição).

 

Diagnóstico

O diagnóstico das alergias alimentares é dado pelo médico. Uma boa anamese com a maior riqueza de detalhes possível ajudará ao profissional a suspeitar de alergia alimentar e seguir com a investigação. Dependendo dos sintomas e do tempo das reações após contato com o alérgeno o médico pode desconfiar se as reações podem ou não serem mediadas por IgE. Quando as reações aparecerem num tempo mais curto em sistemas característicos são pedidos exames de IgEs específicas afim de identificar os alimentos envolvidos no quadro de alergia. Para as reações tardias ainda não foram identificados marcadores laboratoriais para realizar essa detecção, sendo o diagnóstico clínico.

A caminhada para familiares de alérgico é longa e demanda dedicação. A ansiedade pode ser controlada buscando informações e compartilhando as experiências. Bons profissionais com vivência nesse tipo de doença são fundamentais para um diagnóstico efetivo e rápido reestabelecimento da saúde da criança.

Espero ter conseguido ajudar a esclarecer aos leitores do SSL sobre alergias alimentares. Logo mais traremos mais temas relacionados as alergias alimentares.

 

Referências:

  1. JARDIM, José Roberto. Jornal ABRASP: O que é anti-IgE. Disponível em : <http://www.sbasp.org.br/jornaldet.asp?id=107> Acesso em: 12/12/2015.
  2. Solé, D.; Silva, L.R.; Filho, N.A.R.; Sarni, R.O.S. Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2007. Rev. Méd. Minas Gerais, 18 (1 Supl 1): S1-S44, 2008.
  3. Solé, D.; Amancio, O.M.S.; Jacob, C.M.A.; Cocco, R.R.; Sarni, R.OS.; Suano, F. Guia prático de diagnóstico e tratamento da Alergia às Proteínas do Leite de Vaca mediada por imunoglobulina E. Rev. Bras. Alerg. Imunopatol, 35 (6), 203-233, 2012.
  4. Spolidoro, J.V.N.; Morais, M.B.; Vieira, M.C.; Toporovski, M.; Cardoso, A.L. Terapia Nutricional no Paciente com Alergia ao Leite de Vaca. Projeto Diretrizes: Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina, 14p., 2011.

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6 Comentários

  • Reply Lucia 19 de dezembro de 2015 at 11:49

    Ola, meu filho ao receber fórmula infantil junto com leite materno desencadeou Aplv. Sintomas baixíssimo ganho de peso, alguns meses até perda e muito muco nas fezes no dia seguinte a ingestao. Já na introdução alimentar, com algumas frutas, surgem em seguida da ingestão pintinhas vermelhas, tipo espinhas, poucas e pequenas. Isso significa que é misto? Não mediado, via leite materno e mediado no caso das frutas?

    • Reply Barbara 20 de dezembro de 2015 at 01:23

      Liana: Parece que sim, mas para ter certeza o ideal seria levar o caso a um médico com experiência em alergias alimentares e fazer exames dos IgEs específicos. O mais comum, que acontece com mais frequência é a reação ser mediada e os sintomas surgirem logo, mas existem relatos de reações mais precoces e os exames darem negativo para a IgE específica.

  • Reply Paolla 22 de dezembro de 2015 at 03:34

    Ola!!! Descobrimos a APLV em minha filha c 10 dias de vida , mesmo sendo leite materno exclusivo , a partir daí deixei de consumir qualquer coisa que contém leite . E ia td bem até os 6 meses quando início às papinhas, ela começou a perde peso e foi aí que descobrimos outras alergias alimentares … ( trigo . Amendoim . Castanha do para . Coco . Aveia ) . E normal quem tem APLV ter mas alergias alimentares .?

    • Reply Barbara 26 de dezembro de 2015 at 14:12

      Liana: Tem sido mais frequente encontrarmos outras alergias associadas sim. Os alimentos mais comumente envolvidos são: soja, ovo, trigo, oleaginosas (castanhas, amêndoas, avelãs, nozes), amendoim, peixes e crustáceos. Algumas frutas podem também estar envolvidas, mas acontece com menor frequência.

  • Reply Eva 26 de abril de 2016 at 01:00

    Olá minha filha e aplv estou amamentando estava na dieta a nutricionista liberou as coisas com traços de leite .voltei a comer ai minha filha reagio fez cocô com sangue e muita mucosa queria saber si ela e intolerância a lactose tb

    • Reply Barbara 27 de junho de 2016 at 13:14

      Olá, Eva! Provavelmente sua filha está reagindo aos traços de leite, ou apresenta reação alérgica a algum outro alimento. Procure novamente a nutricionista! :-*

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