COTIDIANO

Fiz do Limão uma Limonada – #3 – Menu Bacana – Carla Maia

30 de dezembro de 2015

No terceiro episódio do “Fiz do Limão uma Limonada”, Carla Maia, a idealizadora do site Menu Bacana, fala sobre a descoberta da alergia alimentar da filha,  como virou o jogo e construiu um dos blogs mais lembrados quando o assunto é receitas para alérgicos e intolerantes. Imperdível!

 

O nosso processo de descoberta e convivência com a alergia alimentar iniciou-se poucos dias após o nascimento de nossa filha, Mila. Cólicas constantes, chiado no peito, irritabilidade durante as mamadas e muita dificuldade para dormir foram os seus primeiros sintomas. Diarreia persistente e uma assadura severa que lesionou sua pele com uma queimadura de 2º grau foram o auge das reações e os piores dias da minha vida. Pouco tempo depois identificamos a presença de sangue nas fezes. Buscamos um especialista e fui orientada a realizar a dieta de exclusão de vários alimentos alergênicos e posterior teste de provocação oral. Diagnóstico de alergia alimentar confirmado e uma dieta restrita iniciada. Com o decorrer do tempo fomos introduzindo novos alimentos e algumas outras alergias foram se confirmando.

Logo nos primeiros dias percebi que a “exclusão” não se referia apenas aos alimentos alergênicos. Na verdade, a exclusão real se referia ao modo como a sociedade se nega a acolher pessoas com restrições alimentares e seus familiares. Independente dos espaços que frequentávamos ou das pessoas que convivíamos, a exclusão transformou-se em um padrão de comportamento incontornável em nossas vidas. Foi assim que ambientes antes agradáveis e prazerosos – almoços familiares, confraternizações com amigos, jantares em restaurantes – se converteram em uma autêntica “liga da exclusão”.

Em um contexto tão adverso, o retorno à cozinha foi o caminho inevitável. Nasci em uma família mineira cercada de cozinheiras de “mão cheia”, que possui uma tradição muito presente e uma relação muito viva com a cozinha, onde aprendi alguns segredos e truques de uma boa receita. Mas como cozinhar sem os ingredientes considerados até então fundamentais? Fiquei completamente perdida.

Com o passar dos dias e após várias horas de dedicação, a ansiedade e a decepção das primeiras receitas deram lugar a experimentação de novos ingredientes e a descoberta de novos sabores. Já era possível comer um bolo fofinho e um pão macio com casquinha crocante sem riscos.

Compartilhava as receitas nas redes sociais, em alguns grupos de mães de crianças alérgicas, e algumas pessoas começaram a testá-las e a gostar dos resultados. Foi aí que criei o Menu Bacana, um espaço de compartilhamento de receitas testadas e fotografadas, com explicações e adaptações pensadas para a culinária especial sem glúten, leite, ovo e soja.

Tive formação acadêmica em Direito e trabalhei por mais de 10 anos na área de inclusão social. A realidade que passamos a vivenciar com a alergia alimentar de nossa filha, além de evidenciar a importância do resgate do ato de cozinhar, remeteu-me mais uma vez ao tema da inclusão, agora para evidenciar a necessidade de reflexão sobre a diversidade alimentar em nossas práticas sociais, costumes e tradições e sobre o reconhecimento de que vivemos em um sistema que nega a pluralidade alimentar e considera a todos como sujeitos uniformes e desprovidos de diferenças no que tange a sua identidade alimentar.

Quando Mila nasceu, me afastei daquela que era a minha profissão. Quando Mila foi diagnosticada com alergia alimentar, me reaproximei da cozinha, e assim nasceu um novo projeto, a Cozinha Inclusiva, que não deixa de ter uma ligação estreita com aquilo que entendo por respeito à diversidade.

Acredito que é preciso vivenciar as restrições alimentares de forma positiva. A maneira como vivemos nosso dia a dia, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos, pode ter como efeito um processo que promove a cura em todas as pessoas envolvidas nesse contexto de sujeição a uma dieta, em razão de uma restrição alimentar. Passamos a reaprender a forma de nos relacionarmos com atividades importantes de nossas vidas, como o comer, o conviver e o compartilhar.

Hoje não tenho somente a intenção de compartilhar receitas, mas, sobretudo, promover o empoderamento de pessoas a se sentirem capazes de elaborar seus próprios alimentos com o objetivo de transformar uma realidade de exclusão em um convite ao acolhimento.

Espero que o meu trabalho chegue àquelas pessoas que precisam de apoio. Com apoio podemos perceber que não estamos sozinhos, mas sim juntos em busca de um caminho mais ameno nessa estrada de convivência com as restrições alimentares.

A Culinária Especial tornou-se o meu trabalho e a Cozinha Inclusiva o meu lugar.

 

Carla Maia

Idealizadora do site Menu Bacana – cozinha inclusiva, um espaço de luta pelo reconhecimento da diversidade alimentar por meio do compartilhamento de receitas recheadas de afeto.

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2 Comentários

  • Reply Bruna 31 de dezembro de 2015 at 03:09

    Parabéns Carla! Seu projeto é maravilhoso!

  • Reply Vivian Navaroo 12 de janeiro de 2016 at 23:00

    Maravilhoso demais! Eu voltei a cozinhar depois que meu filho foi diagnosticado com aplv, alergia a soja, côco e oleaginosas. Mesmos sintomas de sua filhota. Agora vai para a creche e terei de enviar os lanches porque a inclusão infelizmente ainda existe. Então nós, mães, buscamos integrá-los por meio de nossas mãos, panelas, receitas e amor! Suas receitas são ótimas!!!! Adoro.

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