COTIDIANO

Depoimento: Daisy Fortes e a Síndrome Látex Alimentos

25 de fevereiro de 2016

Algumas pessoas possuem alergia ao látex, presente naquelas luvas cirúrgicas e em bexigas. Entre 20 e 60% dos alérgicos a látex apresentam reação alérgica após contato com algum alimento de origem vegetal, principalmente frutas tropicais*. Esta é a Síndrome Látex-Fruta, ou Síndrome Látex-Pólen-Fruta.

Daisy Fortes, da fanpage Síndrome Látex Alimentos, divide conosco sua emocionante história, seus inúmeros percalços até o diagnóstico e da sua luta para tornar a Síndrome mais conhecida.

 

Minha História com a Síndrome Látex Alimentos – SLA.

Por: Daisy Fortes

 

Desde criança tive várias reações do que hoje sei serem alérgicas.

Barriga estufada, vômitos, diarreias, sinusite eram frequentes, aos 9 anos outros indícios de alergias mais severas surgiram, tive reação anafilática ao iodo e passei a ter muito mais enxaquecas, o que fez meus pais me levarem a vários médicos que concluíram que não havia nada além de enxaqueca e que poderia ser emocional ou mesmo eu estar valorizando para chamar atenção.

Os sintomas foram se agravando e além de diversas cirurgias ginecológicas e um aborto espontâneo passei por 02 cirurgias de hérnia de hiato na tentativa de parar de vomitar pois tendo 1,70 mts de altura pesava aos 29 anos 43,5 kg. Um ano após o abortamento tive crise de asma grave e fui surpreendida por diagnóstico de asma pois nunca havia tido nenhum indício antes, embora pneumonias eram frequentes principalmente em pós cirúrgicos.

Os anos se passavam e a saúde em geral cada vez pior.

Nesta época fui diagnosticada com glaucoma. A pressão dos meus olhos era altíssima e todos os colírios testados pioram o quadro e aumentavam reações alérgicas, o que mais tarde descobri ser pelos conservantes aos quais também tinha alergia.

Na tentativa de estabilizar a pressão intra ocular que só piorava e diminuir as dores terríveis nos olhos e cabeça, 08 cirurgias nos olhos.

Passei também por câncer inicial de mama e colo do útero, pelo que passei por mais cirurgias e 03 quimioterapias.

Aos 29 anos também tive um coma hipoglicêmico e consequente AVC isquêmico. Foram 04 dias em coma e 3 meses de internação para recuperar movimentos do lado direito do corpo e tentarem descobrir por que eu tinha cerca de 4 convulsões por dia após me alimentar. Concluíram que tinha intolerância à frutose e sacarose e que dieta de açúcares e frutas deveria resolver e me deram alta.

Retirei totalmente o açúcar, o que me deu certa estabilidade pois o que sempre gostei de doce é chocolate e com a retirada dele retirei também as castanhas que vem junto sejam adicionadas ou em traços que vim a saber ser o alimento que mais me causa reações alérgicas, mas mantive algumas frutas pois sempre gostei muito de frutas e convulsões não estava tendo. Passei a ter dieta muito regrada e natural por receio de nova hipoglicemia, mas edemas, tosse seca crônica, asma e anafilaxias aumentavam e aos 31 anos fiquei cega pelo glaucoma que era agravado pelas reações alérgicas ainda não identificadas.

Aos 37 anos mudei de cidade e aos poucos de médicos. Ingressei em nova faculdade e comecei a piorar muito. Cursava tecnologia de alimentos e aulas em laboratório bem como visitas as indústrias de alimentos desencadearam dores insuportáveis novamente na cabeça e olhos, e a pressão intra ocular cada vez mais alta. Alguns desmaios e asma grave e médico me proibiu de prosseguir no curso as vésperas de me formar. Faltava o estágio mas ficou muito claro que não poderia frequentar aqueles ambientes, muitas remoções de ambulância para o hospital e mais 10 cirurgias oculares para tentar suportar a dor, e só piorava.

Então a pessoa maravilhosa que havia escolhido na sorte para ser meu ginecologista me observando e conversando amigavelmente em consulta de rotina levantou a hipótese de alergia ao látex. Levei o assunto ao alergologista que me acompanhava também a pouco tempo devido a mudança de cidade, mas que havia sido o que mais chegou perto de descobrir o que eu tinha e havia iniciado tratamento de imunoterapia para as demais alergias então diagnosticadas, fizemos exames e avaliações clínicas e o diagnóstico enfim veio, tinha alergia ao látex com reação cruzada a alimentos.

De início os exames indicaram reações fortes as castanhas, algumas frutas e o milho que desde a infância me fazia muito mal, mas conforme as exclusões seguiram sem que houvesse melhora e as anafilaxias foram sendo mais frequentes, chegando a 4 ou 5 por mês mesmo com uso maciço de corticoides, precisei radicalizar na dieta e passei 3 anos quase só a carnes e trigo tentando reintroduzir outros alimentos. Cuidados extremos quanto ao ambiente também tiveram de ser tomados, nada com látex por perto, nada com perfumes e muitos mais.

Com isso tudo, e o uso da medicação de uso contínuo consegui melhoras impressionantes. Desde a 1ª aplicação da de uso contínuo já com todos os cuidados e dieta já houve melhora da tosse e da asma. As anafilaxias só pararam com 2 anos de medicação e assim pude retirar o corticoide de uso fixo que me deixou sérias consequências. Não há cura até o momento nem para cegueira por glaucoma nem para Síndrome Látex Alimentos- SLA, como batizei pelas conclusões dos 05 anos em que venho estudando muito esta alergia. Tratamentos convencionais não se aplicam e mesmo medicamentos comumente usados por outros alérgicos podem causar reação em quem tem SLA pois cada pessoa reage a coisas diversas e diferentes.

Consegui a alguns meses chegar a uma dieta de 9 alimentos, todos orgânicos, sem aditivos e livres de traços e tive um ano bem mais estável. Porém a cerca de 04 meses as anafilaxias voltaram e a dose do medicamento de uso contínuo terá de ser revista.

Vivo quase em clausura, as pessoas para conviver comigo tem de manter vários cuidados e com isso consigo ficar muito bem no geral, sem medicações para estômago, rinite, asma, olhos, apenas o medicamento de uso contínuo.

Estudei muito, fiz contatos mundo a fora com outras pessoas com alergia ao látex, muitos ainda chamam de alergia látex frutas, síndrome látex frutas vegetais, síndrome látex frutas vegetais pólen ou outros nomes semelhantes, mas o que se percebe de fato é que todas as pessoas com alergia ao látex que continuam se expondo a ele pioram e estabelecem reação a alimentos de todos os tipos e a muito mais coisas, como se a imunidade se desordenasse cada vez mais.

Então criei uma página no Facebook com nome Síndrome Látex Alimentos – SLA e um grupo fechado. Comecei a encontrar mais e mais pessoas, muitas crianças com os mesmo sintomas e dificuldades de diagnóstico e conduta e perceber que muitas pessoas tem SLA e não sabem, e pior, que nem os médicos a reconhecem por que ignoram dizendo ser rara, o que em 03 meses de grupo fechado os 60 casos que surgiram bem como os dados de outros países provam ser um grande engano.

A Síndrome Látex Alimentos – SLA não é rara, é apenas ainda pouco conhecida e diagnosticada. Qualquer pessoa pode desenvolver, em qualquer momento da vida reações ao látex e alimentos e a utilização do látex em hospitais e indústrias de alimentos pode matar muitas pessoas.

Leia, informe-se, curta nossa página, compartilhe estas informações pois o diagnóstico ainda é um grande desafio, e a conduta outro ainda maior.

 

*Informação obtida deste artigo, disponível no site da ASBAI.

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2 Comentários

  • Reply Daisy Fortes 25 de fevereiro de 2016 at 18:31

    Gratidão querida!!!

    • Reply Barbara 1 de março de 2016 at 01:00

      :-* Obrigada por dividir sua história conosco!

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