COTIDIANO

A importância do vínculo mãe e bebê e o que a alimentação representa nessa relação

3 de julho de 2014

Por Cláudia Mouraria

Alimentação e maternidade: enlaces na constituição psíquica

Alimentação e maternidade são dois temas intrinsecamente ligados que nos remetem à nossa origem. Desde o início, na vida intra-uterina, somos alimentados por nossa mãe. Após o nascimento a ligação umbilical é substituída pela ligação afetiva e pelos cuidados maternos, incluindo aí a alimentação. Tal cuidado é denominado   de função materna e pode ser realizado por outra pessoa quando há ausência  ou impedimento da mãe biológica.

Cuidados básicos como higiene, sono, segurança, entre outros, são sempre envoltos pelo psiquismo da mãe e por sua interpretação do comportamento do bebê, que ainda não fala e nem sequer modula seu choro. Lembro-me de quando estava grávida e acordava na madrugada devido ao enrijecimento de minha barriga. Imaginava que o bebê estava desconfortável lá dentro e se expressava me empurrando e contraindo-se. O que estaria acontecendo? O que será que ele estava expressando? Intuitivamente eu comia algo e logo então o bebê relaxava e minha barriga voltava ao normal. Comunicação direta, não?! Concluía que ele estava com fome, pois ao me alimentar e, indiretamente, alimentá-lo minha barriga voltava ao normal e podia a dormir novamente. Assim se foram os últimos três meses de gestação.

A comunicação entre o bebê e sua mãe (ou aquele que desempenhe a função materna) é sempre intermediada pela capacidade de interpretação do cuidador e pelas respostas comportamentais do bebê. Em suma, por ensaio e erro! Observando e agindo a mãe e o bebê vão conjuntamente apreendendo quais são as necessidades em questão. Por exemplo, se o bebê chora e a mãe o alimenta, mas ele não para de chorar, provavelmente não era fome. Se ela tira a roupinha e o choro não para, provavelmente, não era calor.

Os aspectos emocionais da mãe, bem como suas experiências vividas, influenciam diretamente em sua interpretação e consequentemente em seus cuidados. Assim, mãe e bebê vão se conhecendo e se constituindo psiquicamente. “Ao nascer o bebê, nasce uma mãe.” Ninguém nasce pronto ou com manual de instrução. É a partir do vínculo, que nos tornamos humanos.

Com o passar do tempo, a capacidade de comunicação do bebê vai se refinando e ampliando. Ele passa a modular o choro (chorando de diferentes formas e intensidade) e a utilizar outros recursos comportamentais, que dependem do amadurecimento fisiológico. Já não chora apenas por querer mamar, dormir ou ter dificuldades gastro-intestinais. Chora quando alguém vai embora, sorri quando alguém brinca com ele, balança a cabeça com uma música e, sobretudo, começa a se relacionar com outras pessoas além da mãe.

Lembro-me de uma amiga que me disse que os dois dias mais emocionantes de sua vida foram: quando sua filha nasceu e quando o pediatra disse que a Beatriz já poderia começar a comer! Isso significava que sua filha não dependeria mais exclusivamente dela para ser alimentada. Esse exemplo nos mostra o quanto o vínculo alimentar une e, de certa forma, prende mãe-bebê.

A amamentação é fonte de grande preocupação para as mães. Talvez, por ser instintivamente aquilo que mantém mãe e bebê unidos, nos primórdios evolutivos. Ao ser amamentado o bebê tem várias necessidades satisfeitas, como: ser aquecido e protegido (de animais e do abandono). Assim, a amamentação funciona como uma espécie de cordão umbilical simbólico.

Antes de terminar, gostaria de citar uma última experiência que me fez compreender a intensidade da simbiose biológica e psicológica, que se passa nesse período. Quem me proporcionou esse ‘insight’ foi meu afilhado, na ocasião com cinco anos. Eu estava amamentando meu filho, com três meses, e tomando um suco. Então, ele me perguntou: o João vai mamar suco?! Eu respondi que não e expliquei que ele mamaria o leite produzido pelo meu corpo, a partir do suco e outras coisas que eu comesse. Dei essa resposta complexa como se fosse algo simples. Imediatamente após, me dei conta que talvez não fosse uma resposta adequada e receei tê-lo confundido. Mas, para minha surpresa, ele havia captado algo essencial e me disse: “então, ele está comendo você?!”. Por um instante fiquei atordoada, mas depois ri aliviada ao constatar a intensidade desse vínculo de dependência inicial.

Os grandes autores da psicanálise utilizam o exemplo da amamentação para explicar o enlace do biológico e do psicológico, responsável pela constituição do psiquismo, característico do desenvolvimento humano. A esfera biológica é, desde o início, envolvida pela esfera psicológica. Desse modo, ocorre uma gradual sobreposição da necessidade da fome pelo desejo da alimentação. Vale apontar que nem sempre a necessidade e o desejo são coerentes entre si! Assim, não comemos apenas porque temos fome, mas quando estamos carentes. Não deixamos de comer apenas quando estamos saciados, mas ao sentirmos angústia ou medo.

Espero ter conseguido, nessas breves linhas, expressar o quanto o vínculo primordial é o pilar de base para o desenvolvimento humano.

 

Cláudia Grisi Mouraria é psicóloga clínica e mestre em Transtornos Alimentares pela USP/ Ribeirão

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